Muitos motoristas não gostam de dirigir a noite,
alguns passaram por experiências ruins, outros
apenas não gostam mesmo, mas eu pensava
diferente, para mim dirigir a noite sempre foi um
dos prazeres da vida, ou melhor, ERA um dos
prazeres da vida.
Tudo mudou em uma noite de novembro, eu
estava dirigindo sozinho em meu carro por
bairros desconhecidos, um pouco embriagado,
confesso, mas posso afirma-lhe que os
acontecimentos daquela noite não foram fruto
da bebida. Era por volta de duas da madrugada,
eu tinha acabado de sair de uma festa e acabei
me perdendo em um cruzamento. Após dirigir
por cerca de vinte minutos percebi que a
gasolina já estava na reserva, então parei em
um posto próximo.
O posto assim como o resto da rua estava
totalmente deserto, exceto por um vigia que
dormia em uma cadeira encostada num edifício
distante. Utilizei meu cartão de crédito na
maquina, e comecei a encher o tanque eu
mesmo. Até que em um estranho momento a
temperatura caiu, da minha boca começou a sair
aquela fumaça branca a cada respiração.
Logo que eu acabei de encher o tanque minha
visão periférica percebeu uma movimentação ao
meu lado, quando me girei pude perceber um
garoto de aproximadamente 12 anos ou menos
parado ali. Ele usava retalhos brancos e estava
descalço, o que era estranho, pois a noite estava
muito fria, ele deveria estar congelado, mas não,
apenas ficou ali parado me observando. Tirei
algumas moedas do bolso, para o caso dele ser
algum mendigo, mas antes que eu pudesse da-
las o garoto finamente disse alguma coisa:
"Papai? Por que me abandonou papai?"
"Eu não sou seu pai." Respondi.
Por que me negas pai? Não me ama mais?
EU NÃO SOU SEU PAI - Gritei, parte aterrorizado,
parte irritado.
Então em questão de segundos o garoto se
transformou em uma criatura macabra e
esquelética de olhos fundos e negros e desatou
a correr atrás de mim com passos tortos e
medonhos. Eu sem pensar duas vezes entrei no
carro e sai em disparada dirigindo até o vigia
que dormia no prédio distante. Ao chegar até ele
sai do carro e balancei-o pelos ombros gritando
desesperadamente por ajuda, ele apenas ergueu
os olhos e disse numa voz tremula:
"Você também o viu, não viu? Eu não estava
dormindo jovem, estava apenas de cabeça baixa,
já cometi o erro de olhar em volta durante a
madrugada. E jamais pretendo cometer esse erro
novamente. Agora vá, o seu filho parece estar
impaciente no banco de trás do seu carro."
domingo, 29 de junho de 2014
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